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Inflação em Portugal: o que os índices de preços realmente medem

O IPC e o IHPC refletem a subida geral de preços, mas a tua experiência individual pode contar uma história diferente. Aqui explicamos porquê.

Close-up de um gráfico impresso de dados de inflação com anotações em português

Quando o Instituto Nacional de Estatística publica a taxa de inflação mensal, muita gente fica confusa: o número oficial diz 3,2%, mas a conta do supermercado parece ter subido 15%. A discrepância não é ilusão — tem uma explicação metodológica concreta. O Índice de Preços no Consumidor (IPC) é construído a partir de um “cabaz representativo” de bens e serviços consumidos por um agregado familiar médio em Portugal. Esse cabaz inclui mais de 700 produtos e serviços, desde pão e eletricidade até rendas de habitação e bilhetes de avião. O peso de cada categoria no cabaz é calculado com base nos padrões de consumo nacionais recolhidos nas Inquéritos às Despesas das Famílias — o último grande inquérito data de 2022. Isto significa que, se gastares uma proporção muito maior do teu rendimento em habitação do que a média nacional, a inflação que sentes no dia a dia será sistematicamente superior à que o IPC regista. O INE publica também o Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC), que segue a metodologia do Eurostat e permite comparações diretas com os outros países da zona euro. Em 2023, a inflação em Portugal medida pelo IHPC foi superior à média da zona euro em quatro dos doze meses, refletindo a exposição maior do cabaz português à energia importada e à volatilidade dos preços alimentares.

Um segundo fator que explica a divergência entre inflação oficial e percebida é a frequência de compra. Compramos pão e leite várias vezes por semana; compramos um carro ou um eletrodoméstico raramente. O cérebro humano é muito mais sensível aos preços que encontra com frequência — por isso a subida do azeite de 40% em dois anos pesa mais na perceção do que a descida de 8% nos televisores, mesmo que o efeito no IPC global seja matematicamente semelhante. Para acompanhar a inflação subjacente — excluindo energia e alimentos não transformados, que são as componentes mais voláteis — o Banco de Portugal e o BCE utilizam o chamado “núcleo da inflação”. Quando este indicador se mantém persistentemente acima dos 2%, é sinal de que as pressões inflacionistas se estão a alastrar a toda a economia e não são apenas um fenômeno de choques externos. Em Portugal, o núcleo da inflação manteve-se acima dos 4% durante a maior parte de 2023, o que ajuda a perceber por que razão o BCE manteve as taxas de juro elevadas durante mais tempo do que alguns analistas antecipavam.