Mercado de trabalho · Análise

Desemprego jovem em Portugal: muito além da taxa percentual

A taxa oficial de desemprego jovem desceu para valores próximos da média europeia — mas os dados sobre contratos precários e emigração qualificada contam uma história mais complexa.

Jovens profissionais portugueses num espaço de co-working moderno em Coimbra

Em 2024, a taxa de desemprego jovem em Portugal fixou-se em torno dos 20%, ainda acima da média da União Europeia mas longe dos 38% registados no pico da crise de 2013. Os títulos de jornal celebraram a descida. Mas os economistas que acompanham o mercado de trabalho português apontam para um conjunto de indicadores secundários que complicam a narrativa do sucesso. O primeiro é a taxa de contratos a termo certo: entre os trabalhadores com menos de 35 anos em Portugal, mais de 60% têm contratos temporários, segundo dados do INE de 2023 — o quarto valor mais elevado da UE. Contratos temporários não são necessariamente um problema quando funcionam como rampa de entrada para emprego estável, mas em Portugal a transição para contrato permanente demora em média quatro anos, o dobro da média europeia. O segundo indicador é a emigração qualificada. O Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) e estudos da Universidade Católica estimam que entre 2010 e 2023 emigraram de Portugal entre 20.000 e 30.000 licenciados por ano. Uma parte destes jovens não entra nas estatísticas de desemprego porque saiu do país antes de se registar como desempregada. A taxa de desemprego jovem “oficial” pode, assim, subestimar a dimensão real das dificuldades de inserção no mercado de trabalho português.

O terceiro elemento a considerar é o subemprego. A definição internacional de desemprego (OIT) exige que a pessoa esteja sem trabalho, disponível para trabalhar e à procura ativa de emprego. Quem trabalha 10 horas por semana num contrato de trabalho a tempo parcial involuntário não é tecnicamente desempregado — mas a sua situação económica está longe de ser estável. O INE estima que em 2023 cerca de 180.000 trabalhadores portugueses se encontravam em situação de subemprego por insuficiência de horas. Que implicações tira daqui a política económica? As medidas centradas exclusivamente em reduzir a taxa de desemprego correm o risco de ignorar a qualidade do emprego criado. Economistas como Ricardo Paes Mamede têm argumentado que Portugal precisa não apenas de mais emprego, mas de emprego com maior valor acrescentado, salários mais elevados e maior estabilidade contratual — o que exige políticas industriais e de formação de médio prazo que vão além do ciclo político imediato.